sábado, 31 de janeiro de 2026

Escrever um livro: a primeira decisão

Escrever não é apenas alinhar palavras em uma página; é assumir um propósito. Antes de qualquer técnica, estilo ou disciplina, existe uma pergunta silenciosa que define todo o caminho: por que escrever? Identificar a razão — ou as razões — que nos levam à escrita é um exercício de autoconhecimento. É essa resposta que orienta o uso do tempo, o tipo de conteúdo produzido e o nível de esforço que se está disposto a empregar.

Imagine três pessoas com vidas muito parecidas: mesma profissão, rotinas semelhantes, família constituída e o hábito comum de escrever com frequência. À primeira vista, tudo indica que seguirão trajetórias parecidas. No entanto, basta observar seus objetivos para perceber que, embora escrevam, não caminham na mesma direção. A escrita, nesse contexto, deixa de ser um ato neutro e passa a ser uma escolha estratégica.

O primeiro escritor escreve movido pelo desejo de alcançar leitores, tocar pessoas desconhecidas, publicar histórias e poesias que circulem amplamente. Seu desafio não está apenas em criar, mas em fazer com que sua obra chegue ao mundo.

Já o segundo escreve com foco prático: transformar conhecimento profissional em livros que sustentem palestras, gerem autoridade e sejam distribuídos a públicos específicos. Aqui, a escrita é ferramenta, não fim. Esse perfil, muitas vezes, não tem a intenção de vender sua obra em livrarias, mas apenas em eventos específicos. 

O terceiro, por sua vez, escreve sem ambição de alcance amplo. Seu prazer está em registrar percepções, compartilhar ideias com familiares, amigos e colegas próximos. Para ele, a escrita é quase íntima: não busca aplauso, mercado ou visibilidade, mas conexão e sentido dentro de um círculo restrito. Muitas vezes, esse perfil pretende apenas distribuir o livro para a família e os amigos, sem cobrar. E muitas vezes esse escritor acaba, sem querer, escrevendo coisas universais. É como o cantor que canta sua aldeia e acaba criando algo muito maior.

Nenhuma dessas escolhas é superior à outra — são apenas diferentes. Por isso, definir por que você escreve é o primeiro passo para não se frustrar no caminho. Quem deseja muitos leitores precisará investir em divulgação; quem escreve para públicos específicos deverá ser preciso; quem escreve para si ou para poucos deve aceitar essa limitação com serenidade. A escrita floresce quando o propósito é claro — e se perde quando se tenta seguir um caminho que não combina com a própria intenção.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Mito do Talento Pronto


Escrever mal pode ser o embrião de escrever bem. 

Pense na última vez que leu algo tão brilhante que uma vozinha sussurrou: "Eu nunca vou conseguir fazer algo assim". Ou lembre-se daquela cena que parecia viva na sua cabeça, mas que, no papel, ficou desajeitada. 

Respire fundo. Não se trata de dar dicas mágicas, mas de dar permissão. Permissão para escrever mal.

Vamos desfazer um mito de uma vez: a ideia de que bons escritores nascem com um "dom especial”. Isso, na esmagadora maioria das situações, se trata de uma mentira romântica e perigosa. 

O que chamamos de "talento" quase sempre é prática. Trata-se de uma pessoa que passou milhares de horas fazendo exatamente o que você, escritor iniciante, está começando a fazer agora: encarando páginas vazias, lutando com palavras, escrevendo e reescrevendo.

A escritora Jodi Picoult resumiu perfeitamente: "Você pode editar uma página ruim, mas não pode editar uma página em branco." Esta é a primeira revelação: o trabalho do escritor não é criar obras-primas de primeira. O trabalho do escritor é criar matéria-prima.

Quando você se força a escrever e mesmo sem inspiração, algo mágico acontece no seu cérebro. Chama-se neuroplasticidade. Cada vez que você pratica, seus neurônios criam novas conexões. É como abrir uma trilha numa floresta densa. Na primeira vez, é um sofrimento. Na décima, o caminho está mais limpo. Na centésima, é uma estradinha. 

A página em branco é a floresta virgem. Sua primeira frase, por mais torta que seja, é o primeiro golpe de facão. É o ato mais importante.

Vamos ao que importa. Aqui está um método que vai mudar sua relação com a escrita: a técnica do rascunho bruto. A regra de ouro é simples: na primeira vez, é proibido ser bom.

Você tem dentro de si um Deus Criador, que tem ideias e imagina mundos. Ao mesmo tempo, tem em si um artesão exigente, que critica a gramática e quer tudo perfeito. O problema é que eles tentam trabalhar juntos e travam tudo. 

A solução? Liberte o Deus Criador por um tempo determinado – 15, 20, 30 minutos – e dê a ele uma licença total para fazer…bagunça.

Não sabe o nome do personagem? Escreva [O CARA DO CABELO RUIVO]. Esqueceu-se uma palavra? Coloque [COISA, ACHAR DEPOIS]. O diálogo ficou robótico? Anote e siga. 
O único objetivo do rascunho bruto é sair do outro lado com uma história contada. Não uma história perfeita, mas uma história existente. Porque você não pode consertar, polir ou melhorar algo que ainda não existe. 

O artesão exigente terá seu momento glorioso na revisão, entrará em cena no momento certo. Mas ele precisa de argila para moldar. Seu rascunho bruto é uma espécie de argila.

A escrita é um músculo. E músculos se fortalecem com treinos curtos e consistentes. Que tal experimentar esta semana? 

Na segunda-feira, pegue um objeto da sua mesa e o descreva por três minutos, como se fosse um personagem que o odeia. 

Na terça, escreva cinco linhas de um diálogo em que alguém diz "Estou bem", mas o leitor percebe que não está. 

Na quarta, copie à mão um parágrafo de um livro que você ama para sentir sua carpintaria. 

Na quinta, em cinco minutos, continue: "A coisa mais estranha que aconteceu hoje foi..." O segredo está na consistência, não na grandiosidade.

E la nave va.

Lembre-se: escrever é solitário, mas ser escritor não precisa ser. Aquele sentimento de que só você tem dúvidas e páginas ruins é uma ilusão. Todos temos. Basta você conversar com pessoas, ouvir suas inseguranças. Quem não as tem?

O mundo não precisa da história perfeita. O mundo precisa da história que só você pode contar, com suas imperfeições, sua voz única e sua visão de mundo. A versão perfeita do seu livro é inimiga da versão existente dele.

Portanto, vá. Abra aquele documento. E escreva mal. Com coragem. Com determinação. Porque esta é uma forma vencedora para você começar a escrever bem. E não tenha medo de pedir ajuda para escrever bem uma ou muitas frases. Vá em frente! Com persistência, escrever mal será o embrião de escrever bem.