segunda-feira, 15 de junho de 2026

O zero à esquerda, sempre ele.

 

A pergunta que não quer calar é: 
qual a utilidade do zero nessa faixa? Qual? 

 Já escrevemos sobre esse cacoete de colocar o número zero à esquerda. Mas é preciso reforçar, pois o erro continua, e é um erro muito feio. 

Ao que estamos nos referindo? A isto: 

- Tenho 02 irmãos. 

- Concorra a 05 TVs de LED.

- 04 de outubro de 2025.

E por aí vai. 

Por que o zero à esquerda é errado? Porque é inútil. Não tem serventia. Por isso é que, quando queremos dizer que alguém não serve para nada, dizemos: "Você é um zero à esquerda". Ou seja, é uma pessoa que não tem utilidade para o mundo. Aliás, evite ofender a pessoa nesse nível, pois é uma ofensa muito pesada. Todos têm uma missão neste mundo. Exceto, é claro, o zero à esquerda. Ou talvez ele tenha uma utilidade: separar quem é inteligente de quem não é. Você, leitor, é inteligente, temos certeza. Por isso você não vai mais cometer esse erro. 

Não use o zero à esquerda, exceto em situações, muito, muito excepcionais. Vamos exemplificar duas delas.  

1)  Você vai entrar num site que exige login e senha. Por segurança, o site envia a você um código numérico, que você tem que colocar num espaço reservado: 

Neste caso, infelizmente, somos obrigados a colocar o zero à esquerda, caso o código seja como o mostrado acima. É horrível, mas não há como evitar, neste caso. 

2) Você é um programador e está criando uma página. Os códigos hexadecimais das cores têm, obrigatoriamente, 6 dígitos, precedidos do sinal #. Em alguns casos, esses 6 dígitos incluem o zero à esquerda. Não há o que fazer, nesse caso. 

Mas, fora essas exceções, não cometa o erro, a gafe, de colocar zero à esquerda. 

E, principalmente, não coloque zero à esquerda no dia do mês: 

06 de maio de 2026 

— Ah, mas e se eu for preencher um cheque ou um documento?

Se você ainda preenche cheques nos dias atuais, coloque um # antes do dia. Vale também para documentos.

#6 de maio de 2026

A probabilidade é que esse documento vá ser assinado digitalmente. Então, não precisa colocar nada apenas escrever o dia do mês, e pronto! 

Então, reforçando: zero à esquerda é um zero à esquerda, isto é, inútil. Abandone esse cacoete, se você o tem, prezado leitor!  

 

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Aproveitamos o assunto para um adendo: tente não escrever mais "hum" com h. É feio, desnecessário, e não combina com você, leitor, que certamente é uma pessoa de bom gosto. Se for fazer algum documento que inclua o valor R$ 1.000,00, escreva "mil reais". Não há como adulterar se você fizer isso. Lembre-se: muitas vezes, menos é mais.  

 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Ler exercita a imaginação

A leitura é muitas vezes definida como uma janela para outros mundos, mas essa metáfora esconde um processo muito mais fascinante: ao contrário de uma janela, que apenas exibe uma paisagem pronta, o livro convida o leitor a construir cada cenário, cada rosto e cada sensação dentro da própria mente. Ler exercita a imaginação de forma ativa, constante e profunda. É sobre esse treino silencioso que vale a pena refletir.

Quando um autor escreve “o castelo erguia-se sombrio sobre a colina”, nenhuma imagem concreta e pronta chega aos olhos do leitor, se o livro não for ilustrado (e a grande maioria não é). Cabe a ele, leitor, erguer as torres, escolher a tonalidade do céu, sentir o cheiro da pedra úmida. Nesse esforço íntimo, a imaginação opera como um músculo: quanto mais acionada, mais ágil e potente se torna. Diferentemente do cinema ou da televisão, que entregam o produto visual pronto, a literatura fornece apenas estímulos abstratos para que o cérebro crie seu próprio filme interior.

Ler não é só visualizar paisagens; é também experimentar subjetividades alheias. Ao acompanhar os dilemas de uma personagem, o leitor ensaia emoções que talvez nunca tenha vivido. Esse deslocamento para o lugar do outro é um exercício imaginativo de primeira ordem: é preciso supor dores, alegrias e contradições que não nos pertencem. A neurociência já demonstrou que, durante a leitura de ficção, áreas cerebrais ligadas à empatia e à simulação de experiências se ativam como se estivéssemos de fato vivendo a cena. A imaginação, portanto, não é um devaneio vazio, mas uma ferramenta de compreensão humana.

A leitura expõe o pensamento a situações improváveis, épocas distantes, lógicas não humanas. Um conto de ficção científica pode exigir que o leitor conceba uma sociedade sem gravidade; um romance histórico, que reconstrua os códigos de honra de um passado remoto. Ao entrar em contato com essas variações, a mente amplia seu repertório de possibilidades. A criatividade, afinal, não brota do nada: nasce da combinação inusitada de referências acumuladas. Cada livro absorvido é um novo ingrediente para futuras invenções, um novo padrão que a imaginação poderá recombinar de forma original.

O ato de ler exige uma desaceleração cada vez mais rara. Enquanto as imagens prontas das redes sociais estimulam um consumo rápido e reativo, o texto pede pausa, releitura, retorno ao parágrafo anterior. Essa lentidão é o ritmo em que a imaginação trabalha com mais profundidade, tramando conexões e preenchendo lacunas com aquilo que só o leitor pode dar. Não é passiva a mente que acompanha uma narrativa: ela antecipa desfechos; por vezes, duvida de narradores e completa silêncios. Esse diálogo entre a página e a mente é o oposto do entretenimento que anestesia.

Na infância, a leitura é um campo de experimentação sem amarras: uma criança que escuta ou lê histórias transita sem esforço entre o real e o fantástico, e assim desenvolve a capacidade de pensar o que não está dado. Mas, na fase adulta, quando a rotina tende a comprimir o pensamento no utilitário e no concreto, a leitura literária funciona como uma resistência. Permite que o adulto mantenha viva a sua capacidade de projetar futuros diferentes, de conceber alternativas para a própria vida. Uma mente que lê ficção é uma mente que não se resigna facilmente ao “é assim porque é”.

A imaginação como sobrevivência e liberdade Em tempos de excesso de informação e de algoritmos que antecipam desejos, a imaginação corre o risco de atrofiar. Ler, nesse contexto, é quase um ato de autonomia: é preservar um espaço interno que não pode ser colonizado por estímulos prontos. Quando um leitor imagina, ele está exercendo sua liberdade mais íntima — a de construir mundos que não existem, mas que, exatamente por isso, podem vir a existir. A história está repleta de inovações que nasceram primeiro como ficção, sonho ou metáfora, até que alguém as transformasse em realidade.

Enfim, “ler exercita a imaginação” não é um elogio vago à literatura, mas uma descrição exata de um processo cognitivo e afetivo. Cada página virada é uma academia para a mente criadora, um espaço em que o leitor é coautor da obra que tem nas mãos. Em um mundo saturado de imagens prontas, preservar esse exercício pode ser uma das formas mais bonitas e necessárias de continuarmos humanos, capazes de imaginar, de exercitarmos a imaginação que todos nós temos, afinal.