Escrever mal pode ser o embrião de escrever bem.
Pense na última vez que leu algo tão brilhante que uma vozinha sussurrou: "Eu nunca vou conseguir fazer algo assim". Ou lembre-se daquela cena que parecia viva na sua cabeça, mas que, no papel, ficou desajeitada.
Respire fundo. Não se trata de dar dicas mágicas, mas de dar permissão. Permissão para escrever mal.
Vamos desfazer um mito de uma vez: a ideia de que bons escritores nascem com um "dom especial”. Isso, na esmagadora maioria das situações, se trata de uma mentira romântica e perigosa.
O que chamamos de "talento" quase sempre é prática. Trata-se de uma pessoa que passou milhares de horas fazendo exatamente o que você, escritor iniciante, está começando a fazer agora: encarando páginas vazias, lutando com palavras, escrevendo e reescrevendo.
A escritora Jodi Picoult resumiu perfeitamente: "Você pode editar uma página ruim, mas não pode editar uma página em branco." Esta é a primeira revelação: o trabalho do escritor não é criar obras-primas de primeira. O trabalho do escritor é criar matéria-prima.
Quando você se força a escrever e mesmo sem inspiração, algo mágico acontece no seu cérebro. Chama-se neuroplasticidade. Cada vez que você pratica, seus neurônios criam novas conexões. É como abrir uma trilha numa floresta densa. Na primeira vez, é um sofrimento. Na décima, o caminho está mais limpo. Na centésima, é uma estradinha.
A página em branco é a floresta virgem. Sua primeira frase, por mais torta que seja, é o primeiro golpe de facão. É o ato mais importante.
Vamos ao que importa. Aqui está um método que vai mudar sua relação com a escrita: a técnica do rascunho bruto. A regra de ouro é simples: na primeira vez, é proibido ser bom.
Você tem dentro de si um Deus Criador, que tem ideias e imagina mundos. Ao mesmo tempo, tem em si um artesão exigente, que critica a gramática e quer tudo perfeito. O problema é que eles tentam trabalhar juntos e travam tudo.
A solução? Liberte o Deus Criador por um tempo determinado – 15, 20, 30 minutos – e dê a ele uma licença total para fazer…bagunça.
Não sabe o nome do personagem? Escreva [O CARA DO CABELO RUIVO]. Esqueceu-se uma palavra? Coloque [COISA, ACHAR DEPOIS]. O diálogo ficou robótico? Anote e siga.
O único objetivo do rascunho bruto é sair do outro lado com uma história contada. Não uma história perfeita, mas uma história existente. Porque você não pode consertar, polir ou melhorar algo que ainda não existe.
O artesão exigente terá seu momento glorioso na revisão, entrará em cena no momento certo. Mas ele precisa de argila para moldar. Seu rascunho bruto é uma espécie de argila.
A escrita é um músculo. E músculos se fortalecem com treinos curtos e consistentes. Que tal experimentar esta semana?
Na segunda-feira, pegue um objeto da sua mesa e o descreva por três minutos, como se fosse um personagem que o odeia.
Na terça, escreva cinco linhas de um diálogo em que alguém diz "Estou bem", mas o leitor percebe que não está.
Na quarta, copie à mão um parágrafo de um livro que você ama para sentir sua carpintaria.
Na quinta, em cinco minutos, continue: "A coisa mais estranha que aconteceu hoje foi..." O segredo está na consistência, não na grandiosidade.
E la nave va.
Lembre-se: escrever é solitário, mas ser escritor não precisa ser. Aquele sentimento de que só você tem dúvidas e páginas ruins é uma ilusão. Todos temos. Basta você conversar com pessoas, ouvir suas inseguranças. Quem não as tem?
O mundo não precisa da história perfeita. O mundo precisa da história que só você pode contar, com suas imperfeições, sua voz única e sua visão de mundo. A versão perfeita do seu livro é inimiga da versão existente dele.
Portanto, vá. Abra aquele documento. E escreva mal. Com coragem. Com determinação. Porque esta é uma forma vencedora para você começar a escrever bem. E não tenha medo de pedir ajuda para escrever bem uma ou muitas frases. Vá em frente! Com persistência, escrever mal será o embrião de escrever bem.
Blog da Editora Sucesso
Este é um espaço mantido pela Editora Sucesso e pela RLocatelli Digital. Nossa meta é oferecer, a autores e editores, orientações na área de livros.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
O Mito do Talento Pronto
terça-feira, 25 de novembro de 2025
O que é microficção?
Você já ouviu falar em Microficção?
Pode ser o embrião de uma carreira de escritor
Você já leu uma história tão curta que coube em uma tela de celular, mas que, minutos depois, ainda ecoava na sua mente com força?
"Quando pressionou o botão para apagar minhas memórias, ela esqueceu tudo, menos como encontrar o caminho de volta para mim. Agora, ela está aqui, de novo, com dor no peito, de ansiedade, com os mesmos olhos cheios de perguntas."
O que você acabou de ler é uma microficção.
Em poucas linhas, uma história nasce, se desenvolve e deixa um último ato implícito para a imaginação do leitor completar. Mas, afinal, o que é essa forma literária dos tempos contemporâneos, talvez decorrente da internet, que tem conquistado escritores e leitores nas redes sociais e antologias?
Mais do que um texto curto, um universo em miniatura
Microficção não é apenas um conto muito enxuto. É uma forma literária que exige precisão cirúrgica, na qual cada palavra é uma peça vital de um quebra-cabeça narrativo.
É a materialização do famoso iceberg de Hemingway: a ponta visível – o texto – é apenas uma fração da história. A grandiosidade, o contexto, a dor e a história estão submersos, sugeridos, convidando o leitor a se tornar coautor e imaginar o que não está escrito.
A microficção se adapta a diversos formatos, tais como:
Conto curto, com até 400 palavras. Um sprint narrativo;
Miniconto de até 100 palavras. O desafio começa a ficar sério;
Microrrelato de até 50 palavras. A precisão é fundamental;
Nanoconto de até 10 palavras. A forma mais pura e desafiadora; e,
Post de Instagram/Twitter. A brevidade é a alma do engajamento.
Quais são os pilares para um texto de microficção inesquecível? Como construir muito em pouco espaço?
A nosso ver, esses são os principais pilares que sustentam um bom texto de microficção:
Final Impactante – a última linha é a chave de ouro. Ela deve ressoar, surpreender, cortar o fôlego ou recontextualizar tudo o que veio antes. É o clique que dá sentido à imagem toda.
Sugestão, nunca a explicação – você dá as pistas, o leitor monta o quebra-cabeça. Evitam-se adjetivos demais e descrições longas. Confia-se na inteligência do leitor.
Um momento singular – foca m instante decisivo, um ponto de virada na vida de um personagem. Não se tenta contar uma saga, mas capturar o flash que talvez defina uma existência.
Título como parte da narrative – o título não é um rótulo. É a primeira linha da história. Pode criar contexto, ironia ou mesmo adicionar uma camada completamente nova de significado.
Por que todo escritor deveria praticar a Microficção?
Praticar a microficção é como um treino de alta intensidade para a criatividade na escrita e na vida.
Primeiramente, por se tratar de uma ginástica criativa, que teina a concisão, a escolha vocabular perfeita e a coragem de eliminar o supérfluo. Ensina que menos pode, muitas vezes, ser mais.
Em segundo lugar, a microficcção combate o bloqueio. Enfrentar uma página em branco para um romance pode ser, por vezes, assustador. Escrever uma história de 50 palavras não. É o exercício diário perfeito para manter a musa inspirada.
Além disso, a microficção pode ajudar na construção de público. É conteúdo perfeito para redes sociais. Um perfil com microficções interessantes atrai leitores, cria uma comunidade e constrói uma espécie de biografia de autor – antes mesmo do primeiro livro ser publicado.
Adicionalmente, para editores e preparadores de texto, a microficção é uma ferramenta incrível para ajudar autores a encontrarem o cerne de suas narrativas, aprendendo a cortar o excesso sem perder a essência.
Por fim: microficção pode produzir o embrião de grandes obras literárias. Pode gerar a semente que se desdobrará em belas narrativas.
Propomos aqui um desafio: considerar uma história infantil clássica (como Chapeuzinho Vermelho ou A Bela Adormecida) e recontá-lo em apenas 50 palavras, do ponto de vista do Lobo, no primeiro caso, ou do Príncipe que desperta sua futura esposa, no segundo. Pode ser muito divertido, ainda que não necessariamente fácil.
Em um mundo de excesso de informação e atenção fragmentada, o poder de uma história bem contada em poucas linhas pode ser valioso. E pensando bem, a microficção, longe de ser apenas algo decorrente da internet e das redes sociais, é a prova incontestável de que não precisamos de mil páginas para tocar o coração humano. E de que algo conciso pode ser a semente de algo grandioso.

